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  • Rodrigo Giaffredo

O mito dos "buscadores de novos desafios"

Seja no desenvolvimento da carreira, seja na busca pela recolocação profissional, desde a preparação do currículo até o momento da entrevista de emprego, é fundamental que nossas atitudes e palavras sejam éticas e honestas. Não podemos iludir o contratante e nos apresentarmos como "amantes dos desafios", caso essa realmente não seja nossa intenção.


Olha só, já vou te avisar, caso você esteja a fim de ler um texto exaltando as virtudes daquela pessoa ousada, que quando não encontra o seu "propósito" começa a buscar oportunidades, então esse artigo não é pra ti.



O papo aqui é meio heterodoxo, e aborda a parte delicada desse negócio de "ir em busca de novos desafios", aquela que prejudica demais tanto o profissional aventureiro, quanto o contratante que acredita mesmo que a pessoa está a fim de se desafiar.


Me explico.


Imagina a seguinte situação hipotética: eu sou um empresário, e tenho várias buchas pra resolver, no sentido de transformar minha empresa num negócio de sucesso, que cresce de maneira consistente e beneficia demais não somente o seu mercado, mas também as vidas dos profissionais que embarcam comigo nessa jornada, e das suas famílias também, afinal de contas quando todos crescem, todos crescem, não é verdade?


Imagina também que na minha empresa tem aquele pessoal mais resistente que precisa ser convencido a se abrir pra algumas mudanças favoráveis à execução da minha estratégia de negócio, tem um pouco de burocracia também porque meu mercado é regulado, tem conflito de agenda entre os executivos que eu contratei porque eles têm seus interesses pessoais e isso é compreensível, afinal de contas não existe almoço grátis.


Tem uma galera que não está mais engajada com os objetivos de negócios da empresa, tem a concorrência crescendo dois dígitos enquanto a gente se vira nos trinta pra pagar as contas em dia, tem fornecedor pisando na bola e atrasando entregas importantes, tem cliente fazendo fluxo de caixa às custas de atrasar os pagamentos pra nós, enfim, tem uma porrada de desafios de verdade, no sentido literal da palavra mesmo, que precisam ser superados.


Daí eu começo a procurar no mercado pessoas que amem desafios, e que estejam dispostas a me ajudar nessa recuperação, pessoas experientes, com muita capacidade técnica e com habilidades comportamentais diferenciadas, afinal é desse blend que o meu conjunto de desafios precisa, não é verdade?


Daí eu, ingênuo que sou, encontro entre as pessoas que se candidataram à minha vaga, um currículo que diz que a pessoa ama desafios, que ela está num momento da carreira em que deseja crescer, que ela é resiliente e que tem certificação em todas as metodologias possíveis de team building, gestão X.0, formação de times Y.0, liderança Z.0, participou na construção das ideias dos projetos A, B e C nas empresas tal e tal, e eu penso "poxa, é dessa pessoa que eu preciso, vou contratar ela agora antes que alguém chegue primeiro".


Contrato a pessoa, garanto que o onboard dela seja legal, explico pra ela como é a cultura da nossa empresa, ofereço tudo que o mercado oferece em matéria de benefícios, um salário compatível pra caramba com a posição e o tamanho do desafio, e principalmente, ofereço exatamente o que a pessoa pediu: um baita desafio, daqueles cascudos mesmo, pra ser resolvido.


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Passa um mês, passam dois, passam três, e no quarto mês a diretora de RH me traz numa das reuniões semanais de refinamento da execução da estratégia que a pessoa contratada pra me ajudar a superar os desafios que nós dois sabíamos que existiam na companhia, está se sentido desmotivada e quer nos deixar.


Eu pergunto: "tá, mas o que a pessoa falou especificamente? Vamos contornar a situação, trata-se de uma profissional super qualificada, eu quero reverter, quero que ela fique com a gente."


Pra minha surpresa, eu ouço o seguinte: "ela está tendo muitas dificuldades pra lidar com as agendas executivas e com a falta de engajamento do time, e pensa em ir pra concorrência porque o produto deles vende mais que o nosso atualmente. Além disso ela não consegue lidar com a falta de responsabilidade dos fornecedores, que não cumprem os prazos combinados com a gente, e fica muito chateada quando não consegue fazer o time receber os atrasados num tempo bom o suficiente pra melhorar nosso prazo de recebimento. Ah, e ela acha que a gente é muito engessado e burocrático também, e isso acaba dificultando o estilo de trabalho que ela gostaria de adotar".


Meu queixo cai, meus olhos piscam lentamente, e eu penso, mas não falo: "cara, mas foi justamente pra me ajudar a corrigir esses problemas que eu contratei essa pessoa. O que a gente precisa aqui é de amantes de desafios que sejam capazes de lidar com eles, e não de apontá-los pra mim. O diagnóstico eu já tenho, senão nem teria contratado ela. É sério isso que eu ouvi? Peço pra me beliscarem só pra checar se eu estou sonhando, ou não falo nada e continuo nesse estado de catarse induzida?"


Longa-história-curta, percebo que caí na pegadinha de contratar alguém que chama playground de desafio.

Não é desafio nenhum chegar numa empresa onde está tudo arrumadinho, tudo certinho, tudo redondinho, tudo em paz, todo mundo engajado, um lugar cheio de processos fluídos e de certezas, e querer se tornar parte do time pra pôr pra fora o seu lado criativo que a outra empresa sufocava.


Não é desafio nenhum chegar numa empresa que precisa de ajuda, que precisa de inovação e de engajamento, que precisa melhorar seus resultados (é pra isso que elas servem, lembra?) e promover um ambiente onde bem-estar e alta performance convivam harmoniosamente, e ficar só dando ideias mirabolantes ou iniciando projetos que não acabam nunca porque "as barreiras da organização são altas demais para serem transpostas".


Profissionais que iniciam projetos pirotécnicos, e que abandonam o barco quando as coisas começam a ficar difíceis, não são nem resilientes, nem amantes de desafios.


São na verdade pessoas tóxicas, que enganam a si mesmos e àqueles que os contratam de boa fé, na crença de que realmente farão o que disseram que fariam: aceitar desafios.

Pedir demissão de um lugar onde as coisas estão difíceis, e dizer que está em busca de "novos desafios", não é uma atitude honesta, a menos que você esteja realmente a fim de se desafiar, e de ajudar as empresas a superarem seus desafios. Não é e nem nunca será, mesmo que seu consultor de carreira e de criação de currículos te diga o contrário.


Ética e honestidade não são virtudes apenas do dia a dia de uma empresa. São virtudes de indivíduos, e portanto devem estar latentes em tudo aquilo que dizemos e fazemos.


Ou você está em busca de novos desafios, ou você está em busca de um emprego "sossegadinho". Os dois juntos não dá.


Pronto, falei.



Rodrigo Giaffredo

Palestrante, escritor, professor. Dedicado à formação de lideranças humanizadas, e à construção de ambientes profissionais psicologicamente seguros. Cofundador da Super-Humanos Consultoria. Eleito Top Voice Brasil pelo LinkedIn e Profissional de RH do ano pela ABTD Paraná.


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